Uma reportagem começa muito antes de chegar ao site, à televisão ou ao jornal impresso. Às vezes, nasce de uma conversa na rua. Em outras ocasiões, surge de um dado encontrado em uma pesquisa, de uma denúncia enviada à redação ou de uma situação que chama a atenção de um jornalista.

Mas nem toda ideia se transforma em notícia. Antes de uma reportagem ser produzida, alguém precisa decidir se aquele assunto merece espaço, qual abordagem será utilizada e quais informações serão necessárias. É justamente nessa etapa que a inteligência artificial começa a participar da rotina de algumas redações.

Daniela, produtora da RPC, conta que utiliza IA para organizar e desenvolver propostas de pautas. Quando tem uma ideia, mas ainda não sabe exatamente como estruturá-la, recorre à ferramenta para explorar possibilidades.

“Às vezes você tem a ideia na cabeça, só que você fica pensando: tá, mas eu posso fazer como? Então a IA ajuda com isso, com algumas ideias”, explica.

Em uma dessas situações, recebeu um release relacionado à alimentação. O material não correspondia exatamente ao assunto que pretendia trabalhar, mas despertou uma possibilidade: produzir uma reportagem sobre quanto custa montar uma horta em casa.

Com a ideia definida, Daniela pediu auxílio à IA para estruturar a proposta. A ferramenta apresentou sugestões, que poderiam ou não ser aproveitadas. O exemplo mostra uma utilização relativamente simples da tecnologia, mas também abre espaço para uma discussão maior sobre o processo de escolha das notícias.

Afinal, antes de qualquer reportagem chegar ao público, existe uma série de decisões sobre quais assuntos merecem atenção e de que maneira eles serão apresentados.

“Às vezes você tem a ideia na cabeça, só que você fica pensando: tá, mas eu posso fazer como? Então a IA ajuda com isso, com algumas ideias”Daniela Savieri, produtora da RPC

A seleção de pautas envolve critérios jornalísticos, conhecimento do público, relevância social e decisões editoriais. Quando uma ferramenta passa a sugerir abordagens, ela também participa, ainda que indiretamente, de uma etapa anterior à produção da notícia. Isso não significa que a IA esteja decidindo o que será publicado.

No caso relatado por Daniela, a ideia inicial partiu da jornalista e a ferramenta foi utilizada como apoio. Mesmo assim, vale investigar se o uso frequente desses sistemas pode influenciar a maneira como os profissionais desenvolvem suas propostas.

Uma possibilidade seria observar o que acontece quando diferentes jornalistas utilizam a mesma ferramenta para trabalhar um único assunto. As sugestões seriam semelhantes? A tecnologia apresentaria abordagens pouco exploradas ou tenderia a repetir caminhos mais comuns? Essas perguntas não podem ser respondidas apenas pela experiência de uma profissional, mas ajudam a compreender por que a participação da IA na elaboração de pautas merece atenção.

O resultado pode depender tanto das características da ferramenta quanto da maneira como cada jornalista formula seus pedidos e avalia as respostas.

Daniela explica que a elaboração de uma reportagem envolve muito mais do que organizar uma ideia. Depois que uma proposta é aprovada, começa o trabalho de encontrar fontes, conversar com personagens e verificar se as informações realmente sustentam a história. Nem sempre uma pessoa com um relato interessante é adequada à reportagem que está sendo produzida.

Da mesma forma, uma sugestão aparentemente promissora pode não apresentar elementos suficientes para se transformar em notícia. Essas decisões dependem de avaliação jornalística, e a IA não garante que uma pauta seja relevante, viável ou sustentada por informações verificáveis.

A jornalista também relata que adaptou um prompt para funcionar como uma espécie de editor-chefe exigente. A ferramenta questiona suas propostas e a ajuda a se preparar para apresentá-las nas reuniões. Nesse caso, a IA não apenas organiza informações, mas participa de uma etapa de avaliação preliminar das ideias.

A decisão final continua sendo dos profissionais, porém o exemplo mostra que a tecnologia pode estar presente em momentos da produção jornalística que o público normalmente não acompanha.

Quando se discute inteligência artificial no Jornalismo, a atenção costuma estar voltada ao conteúdo produzido: textos, imagens, vídeos e áudios. Mas existe uma etapa menos visível que também merece ser observada, a decisão sobre quais assuntos serão investigados.

Se a tecnologia passar a participar cada vez mais desse processo, será importante compreender como suas sugestões são avaliadas e quais critérios orientam seu uso. Isso não significa que a IA necessariamente reduza a diversidade das pautas, já que ela também pode ajudar profissionais a encontrar abordagens que não haviam considerado.

Uma notícia não começa quando alguém escreve a primeira linha. Ela começa quando determinado acontecimento é reconhecido como algo que merece ser contado. E, se a inteligência artificial está passando a participar desse processo, entender sua influência sobre as escolhas editoriais pode ser tão importante quanto discutir seu uso na produção do texto final.

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