Em junho de 2026, dezenove trainees da Folha de S.Paulo usaram inteligência artificial na produção de um caderno especial. As ferramentas ajudaram a transcrever entrevistas, buscar informações em documentos, organizar pautas e até sugerir títulos.
Três anos antes, em setembro de 2023, o Meio & Mensagem havia mapeado experiências com IA em jornais e revistas. Estadão, Exame, O Globo e MIT Technology Review testavam diferentes aplicações, da recomendação de conteúdo à transcrição de entrevistas, passando pela otimização para mecanismos de busca e pela análise de dados.
A reportagem também citou o relatório Journalism, Media, and Technology Trends and Predictions 2023. Segundo o levantamento, 67% das publicações pesquisadas usavam IA para recomendações de pautas e sites. O uso frequente, porém, aparecia em apenas 5% dos casos, enquanto 39% ainda estavam em fase de experimentação. Naquele momento, a tecnologia já fazia parte das discussões do setor, mas sua incorporação à rotina ainda era desigual.
Na experiência relatada pela Folha em 2026, a IA aparece em diferentes etapas da produção jornalística. Um questionário respondido pelos 19 trainees mostrou o uso combinado de ferramentas desenvolvidas pelo próprio jornal e de soluções disponíveis no mercado. Entre as aplicações estavam a localização de informações em relatórios, o mapeamento de fontes e a exploração de possíveis abordagens para as reportagens. Jornalistas e editores acompanharam o processo e revisaram o material.
Os dois casos ajudam a entender como a IA vem sendo testada no jornalismo, mas não permitem medir, por si só, o quanto seu uso aumentou nas redações. O levantamento de 2023 reuniu experiências de diferentes veículos e dados de uma pesquisa do setor. Já o relato de 2026 se concentra em uma única turma de jornalistas em formação. São recortes distintos, que mostram formas de utilização da tecnologia, mas não comprovam que ela se tornou indispensável.
“O que não tem nas redes, o que aconteceu agora, só um jornalista pode fazer”Leonardo Carvalho Siqueira, repórter do Estadão
Para entender como essas ferramentas entram na rotina de quem já trabalha em uma redação, conversamos com Leonardo Carvalho Siqueira, repórter do Estadão. Aos 26 anos, formado pela UNIP em 2023, ele trabalha com notícias de última hora, que precisam ser publicadas em um intervalo de cerca de uma hora.
Uma das ferramentas que mais utiliza é o NotebookLM, do Google, principalmente para consultar documentos extensos. “Às vezes eu recebo um processo judicial que tem, sei lá, 200 páginas”, conta. “[...] Eu coloco o documento lá e pergunto: ‘fulano disse isso’. E ela já me dá onde exatamente ele falou. Isso adianta muito tempo.”
O uso, nesse caso, está ligado à busca por informações, não à escrita das reportagens. Siqueira diz que não recorre à IA para redigir textos ou sugerir títulos, ao contrário do que ocorreu no caderno especial da Folha. Para ele, a ferramenta tem limitações quando se trata de acontecimentos recentes. “O que não tem nas redes, o que aconteceu agora, só um jornalista pode fazer”, afirma.
Sua relação com as ferramentas generativas de uso geral, que chama simplesmente de “o chat”, é mais crítica. “Eu sou muito contra ela. E acho que grande parte do jornal também. Pelo menos espero, né”, diz. Em seguida, pondera sobre o que de fato acontece dentro da redação: “É uma coisa que a gente conversa sim, mas a gente não sabe.”
Apesar das ressalvas, ele relata que a IA é usada na tradução de matérias de agências como AP e AFP. Nesses casos, segundo Siqueira, o jornal informa ao leitor que a tradução foi feita com auxílio da tecnologia e revisada por jornalistas. “A gente precisa ser transparente com o leitor”, explica.
Para o repórter, tarefas que dependem de apuração e de contato com fontes ainda exigem a atuação humana. Ele acredita, porém, que atividades mais operacionais podem ser substituídas. Como exemplo, cita o trabalho de assistir a jogos e transcrever os lances. Já ouvir um policial para entender o que aconteceu em uma cidade é outra situação. Sobre a possibilidade de a IA assumir esse tipo de tarefa, ele pondera: “não tem como, acho. Pelo menos ainda não”.
Os exemplos da Folha e do Estadão mostram usos diferentes da mesma tecnologia: de um lado, ferramentas que auxiliam em várias etapas da produção; de outro, um repórter que delimita seu uso à pesquisa documental e à tradução. Mais do que uma resposta única sobre o espaço da IA no jornalismo, os relatos expõem uma questão que permanece em aberto: quais tarefas podem ser delegadas às ferramentas e quais continuam dependendo da apuração, do julgamento e da responsabilidade de quem assina a reportagem?