A inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta distante e já faz parte da rotina de diversas redações brasileiras. Uma pesquisa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) mostra que 86,5% dos jornalistas entrevistados conhecem ferramentas de IA, e 56% já as utilizam no trabalho. Ainda assim, 69,2% dizem nunca ter recebido treinamento para isso (JORNAL DA USP, 2026, s/p).

Na televisão, onde tudo é marcado pela urgência, como dito popularmente “para ontem”, a tecnologia tem entrado principalmente como apoio. É assim que Marcelle Nogueira, editora-chefe do Cidade Alerta Paraná, descreve o uso que faz da IA no dia a dia. "Eu achei que essa foi a sacada: a agilidade, que a gente tanto precisa dentro de uma redação de TV", afirma.

A jornalista usa a ferramenta para desenvolver ideias, revisar textos e pensar em opções de chamadas e GCs (elementos gráficos que aparecem na tela durante a programação). Mas isso não significa ordenar a produção jornalística a sistemas inteligentes. Marcelle trata a IA como uma espécie de parceira de brainstorming, traduzido para o português “tempestade de ideias”, no qual é apresentada uma ideia, recebida sugestões, e a partir delas é feito o resultado final. "Não é que a inteligência artificial faz o nosso GC. Mas eu consigo fazer um brainstorming das minhas próprias ideias", explica.

A experiência dela não é exceção. O levantamento realizado no estudo “A inteligência artificial para jornalistas brasileiros”, feito pela ESPM com 423 jornalistas de 21 estados, mostra que a maioria conhece a tecnologia, mas considera baixo o próprio nível de conhecimento sobre o assunto, e mais da metade já usa IA no trabalho sem nunca ter recebido treinamento formal (JORNAL DA USP, 2026, s/p).

Para Marcelle, isso tende a mudar com a próxima geração. Quem já está no mercado precisa correr atrás de ferramentas que mudam rápido demais; quem está chegando agora vai entrar numa redação em que esse conhecimento já é considerado parte do ofício.

“Eu não uso a inteligência artificial para a apuração de informação”Marcelle Nogueira, editora-chefe do Cidade Alerta Paraná

Quando a imagem não existe, a IA entra como auxílio

O uso de IA não para no texto. A tecnologia também resolve problemas de produção audiovisual, um exemplo é quando certa equipe de reportagem não tem imagem do que está sendo dito. Marcelle cita a série especial Rota 33, produzida pela RIC, sobre policiais investigados por roubo de cargas. Como não havia registro do momento em que os suspeitos abordaram uma carreta na rodovia, a equipe recorreu à IA para gerar uma representação visual da cena.

A ferramenta também já foi usada para gerar áudio e ajudar na edição, onde era reproduzido, com pequenos ajustes, a voz de um repórter sem precisar interromper toda a produção para refazer uma gravação. Segundo Marcelle, isso ainda é limitado: nem toda ferramenta reproduz bem voz e trejeito, e o resultado depende muito de quem está operando.

IA não substitui a apuração

Segundo a jornalista, a apuração segue sendo de autoria jornalística, sem depender do uso da máquina. "Eu não uso a inteligência artificial para a apuração de informação", afirma.

No Jornalismo policial, área em que ela atua, a apuração acontece direto com as fontes, ou seja, policiais, delegados, vítimas e advogados. A IA só entra depois, quando a informação já foi obtida. Essa escolha tem relação direta com uma das maiores preocupações sobre IA no jornalismo hoje: o risco de alucinação. Que consiste em quando o sistema apresenta informação incorreta como se fosse verdadeira. O estudo do Reglab (2026) sobre redações brasileiras aponta o mesmo problema, somado a questões de plágio e responsabilidade sobre o conteúdo final.

Para Marcelle, o risco depende de como a ferramenta é usada, e no caso dela, a IA nunca ocupa o lugar da fonte. Essa distinção pesa ainda mais num cenário de desconfiança: segundo o Digital News Report 2026, só 37% das pessoas entrevistadas em 48 países dizem confiar nas notícias que consomem (EGAN, 2026, s/p). No Brasil, o número cai para 36% (EGAN, 2026, s/p). Quando a pergunta é sobre notícias feitas por chatbots de IA, a confiança despenca para 20% globalmente (ROSS ARGUEDAS, 2026, s/p).

A velocidade não pode passar na frente da informação

Produzir rápido sempre foi marca do Jornalismo de TV. Com a IA, o tempo de algumas tarefas diminui, mas a atenção sobre o que é publicado precisa aumentar na mesma proporção.

"Isso traz a agilidade que o jornalismo diário, que o jornalismo precisa, porque a gente tem que ser muito rápido e acaba que comete erros. E isso, a inteligência artificial pode diminuir esses erros que a gente comete."

Marcelle também usa a ferramenta para testar a fluidez dos textos: quando uma frase soa truncada ou difícil de falar na TV, ela busca alternativas na IA. Mas a decisão final é sempre dela, ressaltando o ponto que quem decide o que vai ao ar é o jornalista, mesmo com a IA sugerindo, organizando e apresentando opções.

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