Quando Maria Pohler chegou à produção dos telejornais da RPC, em fevereiro de 2026, a inteligência artificial já fazia parte da rotina de trabalho. Resumir documentos, procurar informações e buscar sugestões de locais para entradas ao vivo eram algumas das atividades em que a tecnologia poderia ajudar. A empresa também oferecia treinamentos para que os profissionais conhecessem essas ferramentas. Para Maria, que havia passado pela graduação em Jornalismo, parte desse aprendizado ainda era novidade.
Ela começou a trabalhar no G1 Paraná em 2023, como estagiária, passou a atuar como assistente de produtos digitais e, posteriormente, foi para a produção da RPC, afiliada da TV Globo no Paraná. Durante a faculdade, teve contato com projetos e atividades que ajudaram na preparação para o mercado, mas não se recorda de uma disciplina voltada especificamente ao uso da inteligência artificial no trabalho jornalístico.
“Não lembro de ter uma matéria falando sobre como colocar a IA no seu dia a dia, por exemplo, não lembro”, conta.
A experiência de Maria ajuda a levantar uma discussão que vai além de saber usar o ChatGPT para fazer trabalhos acadêmicos. Se a tecnologia já está presente na produção de notícias, como os futuros jornalistas estão sendo preparados para utilizá-la?
Uma pesquisa realizada em 2024 pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), em parceria com a Educa Insights, mostrou que 80% dos universitários e interessados em cursar uma graduação entrevistados conheciam ferramentas de inteligência artificial. Além disso, 71% afirmaram utilizá-las com frequência na rotina de estudos.
Os números mostram que a IA já estava presente na vida acadêmica de muitos estudantes. Uma entrevista de 40 minutos pode ser transcrita em poucos segundos, um artigo extenso pode ser resumido e até a organização de um trabalho pode começar com uma pergunta ao ChatGPT. Mas existe uma diferença entre conhecer essas facilidades e saber utilizá-las quando o resultado será uma informação publicada para milhares de pessoas.
No caso de Maria, essa diferença apareceu no próprio trabalho. Na produção jornalística, ela utiliza a inteligência artificial para entender documentos extensos, organizar informações e procurar caminhos para desenvolver uma pauta. São tarefas que ajudam a ganhar tempo, principalmente quando é necessário lidar com diferentes assuntos ao longo do dia.
A RPC, segundo ela, incentiva o uso da tecnologia e oferece treinamentos aos funcionários. As capacitações ainda são básicas, mas permitem conhecer ferramentas e tirar dúvidas com profissionais que estudam o assunto dentro da empresa.
“Se eu tivesse matérias falando na faculdade, eu acho que seria mais fácil do que ter que aprender no dia a dia. Assim, obviamente a gente aprende todo dia, mas eu já chegaria com uma bagagem, né?”, afirma.
Maria faz questão de reconhecer a preparação que recebeu dos professores. Para ela, os projetos desenvolvidos durante o curso ajudam a entender a profissão, embora a realidade de uma redação apresente situações que nem sempre podem ser reproduzidas em sala de aula. A diferença é que, no trabalho, os acontecimentos estão em andamento e as decisões precisam ser tomadas naquele momento.
Com a inteligência artificial, esse aprendizado ganhou mais uma etapa. Além de saber produzir uma notícia, o jornalista precisa entender quais ferramentas podem ajudar no processo, quais informações devem ser conferidas e o que não pode ser compartilhado com essas plataformas.
A experiência de Maria não representa necessariamente a realidade de todos os cursos de Jornalismo. As universidades podem abordar a tecnologia de maneiras diferentes, seja em disciplinas, projetos ou atividades práticas. Ainda assim, o relato mostra como parte desse conhecimento pode acabar sendo adquirida somente depois que o estudante entra no mercado.
O jornalista Ícaro Lima conhece essa mudança por outra perspectiva. Formado em 2022 pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele estudou temas relacionados à tecnologia, privacidade e utilização de dados, antes de ferramentas como o ChatGPT se popularizarem.
Hoje, como instrutor do Instituto FALA!, organização voltada à capacitação de profissionais da comunicação, participa de treinamentos principalmente na Bahia e em Sergipe. Nas atividades, encontra desde pessoas que querem aprender a automatizar tarefas simples até estudantes que já desenvolvem projetos utilizando inteligência artificial.
“É muito importante que os professores falem sobre checagem, falem sobre autoria, falem sobre a importância de dizer que está sendo utilizada a inteligência artificial”Maria Pohler, jornalista da RPC
Em uma das instituições que visitou, por exemplo, conheceu iniciativas acadêmicas que utilizavam IA para acompanhar publicações jornalísticas e produzir resumos de notícias. São experiências que mostram como a tecnologia pode fazer parte da formação para além da produção de textos.
Mas aprender a utilizar uma ferramenta não significa apenas conhecer seus comandos. “A gente precisa continuar tendo o controle sobre o que ela faz”, afirma Ícaro.
Na rotina de Maria, esse cuidado aparece principalmente quando a inteligência artificial apresenta dados. Ela conta que já recebeu links que não funcionavam ou informações que precisavam ser verificadas. Por isso, costuma procurar a fonte original e conferir se os números realmente correspondem ao que foi apresentado.
“Quando você pede um número, você tem que ver de onde está saindo esse número”, explica.
A situação parece simples, mas ajuda a entender por que o ensino da inteligência artificial no Jornalismo não pode ficar limitado a aprender a utilizar plataformas. Um estudante pode saber pedir um resumo ou encontrar sugestões de perguntas para uma entrevista, mas ainda precisa conhecer os princípios de apuração, checagem e responsabilidade editorial.
Para Ícaro, o repertório adquirido durante a formação faz diferença na maneira como o profissional utiliza essas ferramentas. Conhecer o assunto permite fazer perguntas mais específicas e identificar respostas que não fazem sentido.
“Chegou a hora da gente conseguir se destacar fazendo perguntas melhores, sabe? Fazendo comandos melhores”, afirma.
É justamente essa combinação entre conhecimento jornalístico e domínio das ferramentas que Maria considera importante para quem está começando. Na produção de pautas, por exemplo, a inteligência artificial pode ajudar a organizar uma ideia ou localizar informações, mas muitas sugestões de reportagem surgem das conversas, das observações e do contato com os acontecimentos.
“A IA não está no dia a dia, andando na rua, escutando as pessoas falar”, comenta.
Enquanto essas ferramentas passam a fazer parte das redações, a preocupação com as mudanças no trabalho também cresce. Segundo o levantamento AI Monitor 2026, da Ipsos, 65% dos brasileiros entrevistados acreditam que a inteligência artificial mudará a forma como realizam seu trabalho nos próximos cinco anos. A pesquisa não trata especificamente de jornalistas, mas ajuda a contextualizar as transformações esperadas em diferentes profissões.
Para quem ainda está na faculdade, acompanhar essas mudanças pode representar uma dificuldade. Além de aprender a entrevistar, escrever e investigar, os estudantes precisam conhecer tecnologias que recebem atualizações constantes e podem ser utilizadas de maneiras diferentes em cada empresa.
Maria acredita que chegar ao mercado com algum conhecimento sobre essas ferramentas pode fazer diferença na busca pelas primeiras oportunidades. Ela lembra que o Jornalismo é uma área competitiva e que entender como a inteligência artificial é utilizada nas empresas pode ser um conhecimento a mais para quem está começando.
Mas essa preparação também precisa incluir os cuidados envolvidos no uso da tecnologia. Durante a entrevista, Maria chamou atenção para a proteção de informações sensíveis e para a importância de informar ao público quando conteúdos jornalísticos utilizam recursos artificiais.
Ela cita como exemplo produções audiovisuais em que imagens geradas ou vozes modificadas por IA são identificadas para o espectador. Para a jornalista, esses cuidados deveriam fazer parte das discussões durante a graduação.
“É muito importante que os professores falem sobre checagem, falem sobre autoria, falem sobre a importância de dizer que está sendo utilizada a inteligência artificial”, defende.
A preocupação também aparece nos treinamentos realizados por Ícaro. Segundo ele, nem todos os veículos de comunicação possuem orientações claras sobre o uso dessas ferramentas. Dessa forma, um recém-formado pode encontrar uma redação que já utiliza inteligência artificial, mas ainda está discutindo quais atividades podem ser automatizadas e quais limites precisam ser estabelecidos.
Ensinar tudo isso, porém, não é tão simples. A inteligência artificial generativa se popularizou há poucos anos, e as próprias universidades precisam acompanhar mudanças que acontecem rapidamente. Maria reconhece essa dificuldade e acredita que os professores também estão aprendendo sobre as possibilidades e os riscos da tecnologia.
Ainda assim, considera que ter estudado o assunto com mais profundidade teria ajudado na transição para o mercado de trabalho. Não necessariamente para dominar todas as ferramentas disponíveis, mas para chegar à redação entendendo melhor como utilizá-las.
A experiência dela mostra que o aprendizado sobre inteligência artificial não termina na faculdade e nem deveria terminar. As ferramentas mudam, novas possibilidades aparecem e os profissionais continuam precisando se atualizar. A questão é quanto dessa preparação pode começar antes da formatura.
Maria encontrou na redação treinamentos e ferramentas que passaram a fazer parte do seu trabalho. Outros estudantes podem ter experiências diferentes, dependendo da universidade e das oportunidades que encontram durante o curso. Enquanto a inteligência artificial ganha espaço na produção de notícias, permanece uma pergunta para o ensino de Jornalismo: como preparar os futuros profissionais para uma rotina que já está mudando, sem deixar que esse aprendizado aconteça apenas depois que eles entram no mercado?