Uma mesma notícia pode ser contada de inúmeras maneiras. Há quem comece pela declaração de uma fonte, quem prefira destacar um dado e quem encontre em um detalhe o ponto de partida para a reportagem. Essas escolhas fazem parte da identidade de cada jornalista. Mas o que acontece quando a construção de um texto passa a ser repassada a uma ferramenta de inteligência artificial, capaz de produzir uma notícia inteira em poucos segundos?
A possibilidade de automatizar a escrita trouxe uma preocupação para o jornalismo: até que ponto o uso das mesmas ferramentas por diferentes profissionais pode interferir na originalidade das reportagens? A economia de tempo é um dos atrativos da tecnologia, mas a facilidade de produzir conteúdo também coloca em discussão o espaço das escolhas individuais na produção de uma notícia.
Essa é uma das preocupações de Ícaro Lima, jornalista e instrutor do Instituto FALA!, que realiza treinamentos sobre ferramentas digitais para profissionais da comunicação. Durante as oficinas, ele observa que o uso da inteligência artificial desperta interesse pelas possibilidades de automatização, mas também exige atenção ao resultado que chega ao público.
“Eu olho pra todo canto, eu acesso o veículo AB, CD, tá todo mundo igual. Cadê a originalidade? Sabe? Qual vai ser o diferencial?”, questiona.
A semelhança entre conteúdos, no entanto, não é uma consequência inevitável da tecnologia. Ferramentas generativas podem produzir respostas diferentes conforme as informações e os comandos recebidos. O problema aparece quando a resposta automática deixa de ser um ponto de partida e passa a substituir as escolhas de quem deveria conduzir a narrativa.
Uma reportagem não começa quando o primeiro parágrafo é escrito. Antes disso, há decisões sobre o assunto, a escolha das fontes, as perguntas feitas durante as entrevistas e as informações que merecem destaque. São etapas que interferem diretamente na maneira como uma história será contada.
Ícaro considera que a inteligência artificial pode ajudar nesse processo, especialmente na organização de documentos, transcrição de entrevistas e revisão de conteúdos. A preocupação aumenta quando a ferramenta assume a elaboração do texto final, reduzindo a participação do jornalista à aprovação de uma resposta pronta. “O texto continua sendo uma das coisas mais valiosas do jornalismo”, afirma.
“Eu olho pra todo canto, eu acesso o veículo AB, CD, tá todo mundo igual. Cadê a originalidade? Sabe? Qual vai ser o diferencial?”Ícaro Lima, jornalista e instrutor do Instituto FALA!
Na avaliação do instrutor, o melhor caminho é preservar a escrita como uma atividade conduzida pelo profissional. A inteligência artificial pode apresentar sugestões, indicar outras abordagens e ajudar a identificar problemas na estrutura, mas não deveria determinar sozinha o resultado.
A discussão também envolve o repertório de quem escreve. Dois jornalistas podem receber a mesma pauta e produzir reportagens completamente diferentes. A escolha de uma fonte, a percepção de uma contradição ou a capacidade de relacionar acontecimentos dependem de conhecimentos que não se resumem à elaboração de comandos.
Para Ícaro, à medida que mais profissionais aprendem a utilizar ferramentas generativas, saber fazer perguntas melhores se torna uma forma de diferenciação. A qualidade do trabalho continua relacionada à capacidade de investigar, interpretar e reconhecer informações relevantes.
A inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta restrita a profissionais de tecnologia. A pesquisa TIC Domicílios 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), identificou que 32% dos usuários de internet no Brasil utilizaram ferramentas de IA generativa, o equivalente a aproximadamente 50 milhões de pessoas. Entre aqueles com ensino superior, o percentual chegou a 59%.
O levantamento não mede a capacidade dos brasileiros de identificar textos automatizados. Ainda assim, mostra a dimensão do contato da população com ferramentas capazes de produzir conteúdos escritos, imagens e outros materiais.
Essa familiaridade também muda as discussões sobre o que os leitores esperam encontrar nos veículos de comunicação. Para Ícaro, a repetição de estruturas e a utilização excessiva de textos automatizados podem provocar estranhamento e comprometer a identificação do público com determinados conteúdos.
Trata-se de uma percepção do entrevistado, não de uma relação comprovada pelos dados apresentados. Mas a preocupação aponta para uma questão editorial: quando um leitor procura determinado jornal, não busca apenas informações organizadas. Também encontra uma seleção de assuntos, uma maneira de investigar e uma identidade construída ao longo do tempo.
A IA pode reproduzir estruturas narrativas e auxiliar na redação. O que ela não garante, por si só, é que o conteúdo tenha sido apurado, que as fontes tenham sido ouvidas ou que as informações estejam corretas.
É nessa diferença que a autoria ganha importância. Um texto pode ser tecnicamente bem construído e ainda assim não apresentar uma contribuição jornalística relevante. Da mesma forma, usar ferramentas digitais durante a produção não significa necessariamente abrir mão da originalidade.
O debate, portanto, não se resolve pela simples presença ou ausência da inteligência artificial. Depende de compreender quanto do trabalho permanece sob responsabilidade de quem assina a reportagem e quais decisões foram efetivamente tomadas pelo jornalista.
Quando produzir um texto se torna uma tarefa de segundos, encontrar uma informação relevante, reconhecer uma boa história e decidir como contá-la continuam sendo atividades que exigem algo além de uma resposta automática.