Uma entrevista de uma hora pode ser transcrita em minutos. Um documento extenso pode ser resumido em segundos. Com poucos comandos, a inteligência artificial também sugere títulos, organiza dados e até escreve uma reportagem inteira. Estes atalhos chamam a atenção de redações que precisam produzir cada vez mais conteúdo. O problema começa quando a pressa em utilizar a tecnologia supera o cuidado com aquilo que será publicado.

O jornalista Ícaro Lima conhece de perto essa realidade. Instrutor do Instituto FALA!, que oferece capacitações em parceria com o Google News Initiative, ele realiza treinamentos sobre ferramentas digitais para jornalistas e estudantes, principalmente na Bahia e em Sergipe. Nas visitas às redações, encontra desde profissionais que já incorporaram a IA à rotina até equipes que ainda não sabem por onde começar. “Acho que muitos veículos ainda não sabem o que fazer com IA, ainda não entenderam qual é o impacto”, afirma.

O uso da tecnologia avança cada vez mais no país. A pesquisa TIC Empresas 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostra que 17% das empresas brasileiras utilizavam inteligência artificial, contra 13% em 2024. Entre as organizações de grande porte, o percentual chegou a 50%. No setor de informação e comunicação, que inclui atividades além do jornalismo, o índice foi de 49%.

Os números não revelam quantos jornalistas utilizam IA, mas ajudam a entender a velocidade com que a tecnologia está entrando no ambiente profissional. Para Ícaro, a dificuldade não está necessariamente na resistência às ferramentas, mas na falta de conhecimento sobre o que elas podem fazer e quais riscos apresentam.

Durante as oficinas, uma das preocupações do instrutor é mostrar que a inteligência artificial não deve ser tratada como uma fonte de informação confiável por si só. Mesmo quando produz respostas bem estruturadas, a ferramenta pode apresentar nomes, números e acontecimentos inexistentes. “O maior erro que um jornalista pode cometer com IA é não revisar o conteúdo”, destaca.

“O maior erro que um jornalista pode cometer com IA é não revisar o conteúdo”Ícaro Lima, jornalista e instrutor do Instituto FALA!

Essas informações inventadas, conhecidas como alucinações, representam um risco para a atividade jornalística. Uma ferramenta pode apresentar uma declaração que nunca foi dada ou atribuir uma informação a uma fonte inexistente. Se o conteúdo for publicado sem conferência, o erro deixa de ser apenas uma falha tecnológica e passa a fazer parte de uma notícia.

A falta de profissionais capacitados também aparece fora do jornalismo. Segundo a TIC Empresas 2025, 14% das empresas que não utilizavam inteligência artificial apontaram a ausência de pessoas qualificadas como um obstáculo. Outros 14% mencionaram a falta de conhecimento sobre tecnologias adequadas às suas atividades.

Nas redações, Ícaro percebe que o interesse em aprender nem sempre acompanha a existência de regras internas. Alguns profissionais utilizam ferramentas por iniciativa própria, enquanto os veículos ainda discutem como incorporá-las ao processo de produção. Essa diferença se torna especialmente delicada quando envolve informações sigilosas. Ao inserir documentos, entrevistas ou dados pessoais em plataformas externas, o jornalista também precisa considerar como essas informações serão processadas e armazenadas.

Para Ícaro, uma das medidas necessárias é a criação de políticas editoriais que esclareçam o que pode ou não ser feito com inteligência artificial. As orientações precisam considerar desde tarefas internas, como transcrição e organização de documentos, até a produção de conteúdos destinados ao leitor.

Essa diferença importa porque o risco depende do objetivo. Usar IA para achar informações em um relatório e depois checar tudo é bem diferente de publicar uma notícia gerada 100% por uma ferramenta. O instrutor defende que cada veículo estabeleça seus critérios, levando em conta as características da cobertura e a responsabilidade sobre o conteúdo final. Também considera importante que as empresas expliquem ao público como utilizam a tecnologia.

A necessidade de regras, porém, esbarra na própria velocidade das mudanças. Ícaro conta que apresentações preparadas para treinamentos precisam ser atualizadas em poucos meses, diante do lançamento de novos recursos e das mudanças nas plataformas. Enquanto isso, jornalistas continuam tomando decisões sobre o uso da IA durante a produção diária de notícias. Em muitos casos, antes mesmo de existir uma orientação formal da empresa.

O resultado é uma situação em que a tecnologia já pode fazer parte da rotina, mas as respostas sobre revisão, transparência e responsabilidade ainda estão sendo construídas. Para uma profissão que depende da precisão das informações, aprender a utilizar IA é apenas uma parte do trabalho. A outra é saber o que não deve ser delegado a ela.

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