Você pesquisa uma notícia, encontra a resposta e segue o dia. Não precisou abrir um portal, passar por anúncios ou ler uma reportagem inteira. Em poucos segundos, a inteligência artificial reuniu as informações que você procurava. Parece apenas mais uma facilidade da tecnologia, mas existe uma questão por trás disso: alguém precisou investigar, entrevistar fontes, conferir documentos e publicar aquela informação antes que ela aparecesse na sua tela. E todo esse trabalho tem um custo.
Durante anos, os jornais contaram com assinaturas, publicidade e acessos aos sites para ajudar a pagar as despesas das redações. Agora, com a inteligência artificial cada vez mais presente nos mecanismos de busca, surge uma nova preocupação. Se o leitor encontra tudo o que precisa sem entrar no site de um jornal, como esse veículo vai continuar ganhando dinheiro para produzir notícias?
Para o jornalista Leonardo Carvalho Siqueira, de 26 anos, que atua no Estadão, essa é uma das questões que preocupam o futuro da profissão. Ele explica que ferramentas de inteligência artificial conseguem reunir e apresentar informações que já foram publicadas por outros veículos, mas nem sempre os jornais responsáveis por aquele conteúdo recebem algo por isso.
“Só que os veículos não recebem nada por isso, então há uma discussão mundial, assim, sobre, putz, conteúdo que o chat distribui deveria ser pago?”, questiona. Leonardo também chama a atenção para as reportagens disponíveis apenas para assinantes, que exigem um pagamento para serem acessadas diretamente nos sites dos jornais.
A preocupação já aparece em estudos sobre o assunto. Em novembro de 2025, a Folha de S.Paulo divulgou um levantamento da empresa Authoritas que apontou uma possível redução de 20,6% nos acessos aos sites jornalísticos quando respostas geradas por inteligência artificial aparecem nas buscas do Google. O estudo ajuda a entender o problema enfrentado pelos veículos, mas não significa que todos os jornais já tenham registrado essa queda.
“Como é que a gente faz o leitor chegar no nosso jornal sabendo que tem uma IA preditiva em cima?”Leonardo Carvalho Siqueira, repórter do Estadão
Quando uma pessoa deixa de acessar uma reportagem, o jornal pode perder uma oportunidade de exibir anúncios, conquistar assinantes ou apresentar outros conteúdos. Uma busca isolada pode parecer pouca coisa, mas a situação ganha outra dimensão quando se pensa na quantidade de pessoas que procuram informações na internet todos os dias. O conteúdo continua circulando, mas nem sempre o leitor chega até quem o produziu.
Leonardo percebe essa mudança como um problema para os veículos. Antes, era comum pesquisar um assunto no Google, escolher um resultado e entrar no site para ler a notícia. Hoje, em algumas buscas, a resposta já aparece na própria página, sem que seja necessário clicar em outro lugar. “Isso é um problema gigantesco para o jornalismo, gigantesco mesmo”, afirma.
A situação acaba criando uma contradição. Os jornais precisam continuar produzindo notícias para informar a sociedade, mas parte dessas informações pode chegar ao público por ferramentas que não dependem da visita ao site original. Quanto menos pessoas entram nas páginas, menores podem ser as oportunidades de ganhar dinheiro com anúncios e conquistar novos assinantes. Ao mesmo tempo, algumas empresas de tecnologia fazem acordos com veículos para utilizar seus conteúdos, o que mostra que a discussão sobre pagamento e uso das informações ainda está longe de terminar.
Mas existe outra questão nessa história. Quando alguém recebe uma resposta pronta, nem sempre sabe de onde aquela informação veio. O nome do jornalista, o veículo responsável e todo o processo de apuração podem acabar ficando em segundo plano. Para quem está do outro lado da tela, o que importa muitas vezes é apenas encontrar a resposta. Já para os profissionais que produziram a notícia, esse caminho mais curto pode significar menos reconhecimento pelo trabalho realizado.
Isso não significa que as pessoas estejam deixando de ler jornais por completo. Algumas continuam procurando as reportagens para entender melhor os assuntos, conferir as informações ou conhecer detalhes que não aparecem nos resumos. A diferença é que agora os veículos precisam disputar a atenção do leitor com ferramentas que oferecem respostas em poucos segundos.
Para Leonardo, uma das perguntas que os jornais precisam responder é justamente como fazer o público continuar acessando suas páginas. “Como é que a gente faz o leitor chegar no nosso jornal sabendo que tem uma IA preditiva em cima?”, questiona.
Talvez parte da resposta esteja em algo que vai além de reunir informações. Uma ferramenta pode apresentar aquilo que já foi publicado, mas alguém ainda precisa ir atrás das histórias, conversar com as pessoas envolvidas, investigar denúncias e descobrir o que aconteceu. É esse trabalho que permite que uma notícia exista antes mesmo de ser resumida por uma inteligência artificial.
No fim, a facilidade de encontrar uma resposta em segundos esconde um processo muito maior. O leitor pode não pagar nada para receber aquela informação, mas isso não significa que ela tenha sido produzida de graça. E, enquanto a tecnologia muda a maneira como as pessoas consomem notícias, os jornais precisam descobrir como continuar pagando por quem vai atrás delas.