Uma ocorrência aconteceu, mas não há fotografias do momento. Para ilustrar a notícia, seria possível pedir a uma ferramenta de inteligência artificial que recriasse a cena: uma viatura, policiais, o suspeito e o local descrito no texto. Em poucos segundos, a imagem estaria pronta. O problema é que, apesar de acompanhar um fato verdadeiro, aquela fotografia mostraria uma cena que nunca existiu.

A possibilidade de produzir imagens realistas a partir de comandos de texto colocou uma nova questão diante do Jornalismo. Se fotografias tradicionalmente funcionam como registros visuais de acontecimentos, até onde uma imagem artificial pode ser utilizada para representar uma notícia?

Para o jornalista Higor Paulino, de 26 anos, instrutor do Instituto FALA!, organização voltada à capacitação de profissionais da comunicação, a discussão começa em um princípio básico da profissão. “O Jornalismo lida com a realidade. Então, quando a gente parte de alguma coisa que não é a realidade, a gente vai ter um problema muito grande aqui”, afirma.

Durante oficinas realizadas com profissionais e estudantes, Paulino conta já ter se deparado com discussões sobre a produção de imagens artificiais para ilustrar reportagens. O problema, segundo ele, aparece principalmente quando o leitor não é informado sobre a origem daquele conteúdo.

“A gente está falando para o público que essa coisa que ele está vendo, que serve para representar a situação que está sendo relatada na notícia, muitas vezes a gente não explica para esse usuário que essa imagem não é de verdade, que essa cena nunca aconteceu”, explica.

A preocupação também aparece na percepção do público. O Generative AI and News Report 2025, produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, analisou a opinião de pessoas na Argentina, Dinamarca, França, Japão, Reino Unido e Estados Unidos. Em média, apenas 26% dos entrevistados nos seis países disseram se sentir confortáveis com o uso de inteligência artificial para criar uma imagem realista quando não existe uma fotografia verdadeira. O Brasil não fez parte do levantamento.

A aceitação aumenta quando a tecnologia é utilizada em tarefas de apoio: 55% disseram se sentir confortáveis com IA para correção de ortografia e gramática e 53% para tradução. Os números mostram que nem todo uso da tecnologia é percebido da mesma maneira. Enquanto algumas ferramentas interferem principalmente no processo de produção, uma fotografia artificial passa a integrar diretamente a forma como um acontecimento é apresentado ao público.

O avanço das ferramentas generativas tornou possível criar, em poucos segundos, imagens a partir de descrições de acontecimentos. Para o Jornalismo, a facilidade abre uma questão que vai além da capacidade técnica de produzir esse conteúdo: uma imagem artificial pode representar um fato real sem alterar a percepção do leitor sobre o que aconteceu?

“O Jornalismo lida com a realidade. Então, quando a gente parte de alguma coisa que não é a realidade, a gente vai ter um problema muito grande aqui”Higor Paulino, jornalista e instrutor do Instituto FALA!

Uma notícia pode ser verdadeira e todas as informações apresentadas no texto podem ter sido apuradas. Ainda assim, se uma imagem gerada por inteligência artificial for utilizada para ilustrá-la, os elementos visuais apresentados não necessariamente correspondem ao acontecimento. O cenário, a aparência das pessoas, as roupas, os objetos e até as ações representadas são definidos a partir da interpretação da ferramenta e dos comandos fornecidos a ela.

É justamente essa mistura que torna o uso mais delicado. Diferentemente de uma ilustração assumidamente fictícia, uma imagem fotorrealista pode ser interpretada pelo leitor como um registro do fato. Nesse caso, detalhes que nunca foram presenciados ou apurados passam a integrar visualmente uma notícia sobre um acontecimento real.

A Associated Press (AP), uma das principais agências de notícias do mundo, estabelece uma barreira para esse tipo de utilização. Em normas atualizadas em 2026, a agência manteve a proibição do uso de IA generativa para criar, alterar ou aprimorar fotografias jornalísticas. A tecnologia pode auxiliar em atividades como transcrição, tradução, pesquisa inicial, resumo de documentos e sugestões de títulos, mas o conteúdo deve passar por supervisão humana.

A diferença ajuda a estabelecer uma fronteira importante: utilizar inteligência artificial durante o processo de produção de uma notícia não é o mesmo que utilizar a tecnologia para criar aquilo que será apresentado ao público como representação visual de um acontecimento.

A preocupação vai além da possibilidade de uma imagem induzir individualmente um leitor ao erro. Ela também atinge uma relação já sensível entre público e imprensa.

No mesmo levantamento do Reuters Institute, apenas 12% dos participantes, em média nos seis países pesquisados, disseram se sentir confortáveis com notícias produzidas inteiramente por inteligência artificial. O percentual sobe para 43% quando o conteúdo é produzido principalmente por uma pessoa com algum auxílio da tecnologia e chega a 62% quando a notícia é totalmente produzida por humanos.

Os entrevistados também tendem a acreditar que uma presença maior da IA pode tornar as notícias mais baratas e atualizadas, mas também menos confiáveis e transparentes. Apenas 33% acreditam que jornalistas verificam sempre ou frequentemente os resultados produzidos pela tecnologia antes da publicação.

Nesse cenário, deixar evidente quando uma imagem foi criada artificialmente passa a fazer parte da própria relação de confiança entre veículo e leitor. Para Paulino, conteúdos sintéticos precisam trazer elementos claros de identificação.

“Dentro da imagem [é preciso ter] uma marca-d'água para explicar que a imagem é de IA. Em vídeos, a gente ter em todo momento em que o vídeo está sendo exibido alguma marca-d'água muito explícita dizendo que o vídeo foi gerado com IA”, afirma.

A transparência, porém, não depende apenas da identificação de uma imagem. Paulino defende que as próprias redações estabeleçam regras sobre como a inteligência artificial pode participar da produção jornalística, desde a apuração e o tratamento de dados até a produção de textos, imagens e vídeos.

Para o jornalista, estabelecer essas diretrizes também é uma forma de preservar a confiança do público diante da incorporação de novas ferramentas. “Eu vou usar a IA invariavelmente, mas eu vou criar aqui uma relação de confiança com o público explicando momentos que eu usei a IA”, diz.

A discussão não significa que a inteligência artificial precise ser afastada das redações. Ferramentas podem auxiliar na transcrição de entrevistas, organização de documentos, tradução, análise de dados e outras etapas do trabalho jornalístico. O conflito surge quando a tecnologia deixa de apenas auxiliar o processo e passa a criar aquilo que o público pode interpretar como um registro da realidade.

Uma fotografia sintética pode ser produzida em segundos. Para o Jornalismo, no entanto, a pergunta permanece anterior à própria inteligência artificial: se aquela cena nunca aconteceu, como ela pode ser apresentada ao público?

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