Às sete e meia da manhã, o expediente de Daniela já começa com uma corrida contra o relógio. Produtora da RPC, afiliada da TV Globo no Paraná, ela tem pouco tempo para encontrar assuntos, organizar informações e preparar sugestões que serão discutidas nas reuniões de pauta. Em aproximadamente uma hora, precisa identificar o que está acontecendo, avaliar possíveis histórias e pensar no que pode virar notícia.

É uma rotina que exige rapidez e que, nos últimos meses, ganhou uma nova participante: a inteligência artificial.

Formada em Jornalismo em 2006, Daniela acompanhou diferentes mudanças tecnológicas na profissão. Hoje, utiliza IA para procurar dados, resumir documentos e organizar propostas de reportagem. Segundo ela, uma atividade que antes poderia consumir de 15 a 20 minutos agora pode ser resolvida em um ou dois.

“O tempo que eu teria para, de repente, sei lá, perder uns 15, 20 minutos, a IA me faz em 2 minutos, 1 minuto”, relata.

Em uma redação que precisa acompanhar acontecimentos ao longo de todo o dia, essa economia pode fazer diferença na organização das atividades.

Um documento de 40 páginas, por exemplo, pode ser resumido antes de uma reunião. Uma sugestão de reportagem pode ganhar uma estrutura inicial sem que o jornalista precise começar do zero. Daniela conta que esse tipo de auxílio se tornou parte da rotina, principalmente quando precisa compreender um assunto rapidamente para apresentá-lo aos editores.

“O tempo que eu teria para, de repente, sei lá, perder uns 15, 20 minutos, a IA me faz em 2 minutos, 1 minuto”Daniela Savieri, produtora da RPC

A facilidade, no entanto, não significa que todas as etapas da produção sejam transferidas para a ferramenta. As ideias continuam partindo das observações e decisões da jornalista, que utiliza a tecnologia para desenvolver possibilidades e organizar informações.

Recentemente, ao receber um release relacionado à alimentação, Daniela pensou em uma reportagem sobre o custo de montar uma horta doméstica. A sugestão original não era exatamente o que procurava, mas serviu como ponto de partida para uma abordagem diferente.

Com o assunto definido, recorreu à IA para explorar maneiras de desenvolver a reportagem. “Às vezes você tem a ideia na cabeça, só que você fica pensando: tá, mas eu posso fazer como? Então a IA ajuda com isso, com algumas ideias”, explica. Nem todas as sugestões são aproveitadas, mas o processo permite testar possibilidades em menos tempo.

A chegada dessas ferramentas apresenta uma possibilidade para as redações: reduzir o tempo gasto em atividades operacionais e abrir espaço para outras etapas do trabalho. Na prática, porém, essa relação não é automática. Se uma proposta que antes levava 20 minutos agora fica pronta em dois, os 18 minutos restantes podem ser utilizados para buscar uma fonte, confirmar um dado ou investigar melhor determinado assunto.

Mas também podem significar mais tarefas dentro do mesmo expediente, especialmente em ambientes onde a produção de conteúdo acontece continuamente.

A entrevista de Daniela não permite afirmar qual dessas situações predomina nas redações. O que seu relato mostra é que a tecnologia já alterou a maneira como algumas atividades são realizadas. Existe uma diferença entre agilizar a elaboração de uma pauta e produzir uma reportagem completa. Depois que uma sugestão é organizada, ainda é necessário encontrar personagens, entrar em contato com fontes, conferir informações e adaptar o material às necessidades da edição. Essas etapas continuam exigindo tempo, experiência e participação humana.

Na RPC, Daniela explica que o conteúdo produzido com apoio da IA também passa por outras verificações antes de chegar ao público. Editores e repórteres participam desse processo, conferindo informações e avaliando se a reportagem está pronta para ser divulgada.

A ferramenta pode ajudar a organizar o material e identificar pontos que precisam de atenção, mas não elimina a necessidade de apuração. Assim, o tempo economizado em uma etapa não representa necessariamente uma redução equivalente no trabalho necessário para concluir a notícia.

A discussão, portanto, não está apenas em quantos minutos a inteligência artificial consegue economizar, mas também no destino desse tempo. Se a tecnologia permite produzir mais rapidamente, surge uma questão para as empresas de comunicação: o objetivo é publicar mais notícias ou oferecer aos jornalistas melhores condições para investigar as histórias que já estão produzindo?

A resposta ainda depende de como cada redação incorpora essas ferramentas, mas pode influenciar diretamente a qualidade do Jornalismo que chega ao público.

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